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Comer e amar

  • Foto do escritor: Sandra Rodrigues
    Sandra Rodrigues
  • 1 de mar. de 2019
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de ago. de 2022

A questão a respeito do excesso ou falta de peso corporal sempre esteve na pauta seja com enfoque na saúde ou nas questões de aparência, mas hoje a comunicação é instantânea, ao passo que a insegurança, os desconfortos e as questões de sofrimento pessoal são lentos, repetitivos e sacrificantes. Tem sido cada vez mais difícil apostar em algo que rende de médio a longo prazo e que fuja da foto self do dia. Tudo que implica tempo e trabalho extra em um dia a dia já pesado recebe uma cota de desconforto que nem sempre conseguiremos pagar e cada um gera uma resposta emocional às demandas do social, da família e do próprio corpo. Nosso corpo é uma fonte de prazeres e de dores, mas fica evidente a ligação imediata do nosso estado psicológico com a nossa relação com a comida: Engordar, emagrecer, distúrbios alimentares como bulimia, anorexia, vigorexia já ilustram exaustivamente os catálogos psicológicos e psiquiátricos, mas o que de fato pode estar acontecendo?

Quando nascemos saindo do ambiente completo e entramos em um mundo onde precisamos de uma mãe extremamente cuidadosa para interpretar e prover todas as nossas necessidades e o alimento é sempre mais do que só comida. Ao amamentar seu filho, ou lhe fornecer leite na mamadeira, muito mais entra na equação do que o material: o toque, o cheiro, o alimento, o afago, o olhar mútuo tornam o ato de comer um ato de amor. É nesse momento que o bebê sente um rápido, mas necessário amparo que o lembra da vida uterina. Mas e se a mãe interpreta errado o apelo de frio e oferece alimento quando não era exatamente aquilo que o bebê queria? Complicado, não?

No momento da passagem do leite para o alimento sólido, novamente entra a mãe/pai/cuidadores estimulando que a criança coma, tentando que coma as variações necessárias, reclamando se não quer comer, oferecendo mais do que ela gosta, fazendo companhia e mais uma vez é feito o reforço desse ato de amor e suas vinculações subjetivas. Em casos onde nem tudo passou por esse roteiro, como no caso da criança que não mama, que rejeita o leite, que perdeu a mãe, ou que não recebe o cuidado de que necessita ou cuja mãe oferece mais comida que o necessário, a comida recebe uma marca de realce igualmente importante, mas de falta, de desamparo, algo da oralidade que nunca pode ser satisfeito.

AO CEDER E COMER UM POUCO MAIS DO DEVERÍAMOS PENSAMOS: “- EU MEREÇO!”, MAS MEREÇO O QUE?

Assim, com as devidas variações do caso a caso, crescemos com esse histórico onde a comida é mais do que comida, é sensação de conforto, de completude. Há até um termo chamado “confort food” na língua inglesa que define bem essa sensação. Essa explicação também pode alcançar uma grande gama de problemas relacionados a oralidade inclusive o uso de drogas e álcool. Por isso quando tudo está bem ou quando tudo vai mal, considerando esse registro prazeroso/afetivo onde a comida conforta e completa, estamos sempre sujeitos às falhas, faltas ou excessos desse mecanismo de compensação. Nossos sintomas sempre tem um motivo de existir: o que seria de nós sem aquele chocolatinho em uma hora tão necessária? Isso parece nos levar mais perto da lógica da comunicação instantânea: como rápido, me sinto bem por 5 minutos e aí aparece a culpa. A culpa e as auto-acusações relacionadas à comida alimentam a pouca estima por si mesmo que se desenvolve insidiosamente promovendo novas recaídas, novas concessões. Ao ceder e comer um pouco mais dizemos: “ - Eu mereço!”, Mas mereço o que?

COMO RÁPIDO, ME SINTO BEM POR 5 MINUTOS E AÍ APARECE A CULPA

A lógica de receber e dar amor parece estar envolvida com o ato de comer, se sentir satisfeito ou não. Algumas pessoas na falta de amor comem, assim como outras na falta do trabalho, ou diante de problemas neste comem ou bebem muito, outras quando perdem alguém ou algo de grande importância afetiva, estando em profundo desamparo comem demais. Outras já podem ter recebido tanto afeto que o jogam fora simbolicamente na comida, rejeitando o excesso não digerível, são os quadros bulímicos.

Conscientemente já estão feitas as constatações sobre peso, saúde, aparência, mas ao começar a dieta ou ao começar a se exercitar, todo o nosso sistema emocional compensatório reinicia a repetição. Assim como no ato de comer, um garfo depois do outro, é muito custoso quebrar uma repetição sintomática, muitas vezes precisamos de ajuda profissional, de alguém que nos ouça mais do que as palavras e nos ajude a entender: que alimento é esse que me falta? É amor, afeto? Ou é falta dele? O que acontece se eu emagrecer? Será que estou evitando algo? Porque será que preciso me sentir tão mal?

Essas perguntas são profundas e levam até o cerne da questão afeto/alimento, mas mesmo que não se entre nos méritos profundos da questão, senão por psicoterapia, é preciso entender que alimento é mais do que comida e que o equilíbrio do corpo passa sempre pela condição emocional do indivíduo que pode ser revisitada e elaborada. Coragem e foco para quebrar uma repetição e criar novos sistemas e novas relações com o afeto, é disso que estamos falando. Nossa relação com a comida depende disso.

Sandra Rodrigues Psicóloga e Psicanalista




 
 
 

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