Quem ouve a velhice?
- Sandra Rodrigues

- 30 de jul. de 2022
- 3 min de leitura

É algo tão difícil para o ser humano a ideia de envelhecer e da finitude que isso torna a velhice uma fase da vida muito sofrida para todos os envolvidos, familiares, cuidadores, mas especialmente para os idosos. O constante desconforto de se sentir um peso para a família ou da sensação que não serve mais para nada é algo que sempre se escuta de um idoso. Obviamente se um idoso é pouco ou totalmente dependente, ele precisa que alguém o ajude em quase todas as atividades que os adultos fazem no dia a dia no piloto automático: levantar, ir ao banheiro, tomar banho, comer… Assim os familiares ou cuidadores suprem rápida e artificialmente essas tarefas, na maioria das vezes, como algo somente operacional esquecendo, às vezes, que há naquele lugar não um bebê que tem pouca vivência de vida e experiências, mas um adulto que viveu toda uma vida.
Ainda há complicadores nessa equação como idosos com doenças degenerativas, com Alzheimer ou com baixas cognitivas incapacitantes de pensamentos e memórias. Portanto, cuidar de um idoso vai além de suprir seu dia a dia operacional, é necessário estimular sua cognição, oferecer encontros familiares ou com pessoas de sua idade para socializar, fornecer ajuda psicológica, médica ou o acompanhamento de um terapeuta ocupacional. Um idoso na família é um acontecimento que precisa de estrutura, paciência e amor.
Assim como um adolescente o idoso se vê muitas vezes preso em um corpo em transformação, mas se ao adolescente abundam possibilidades futuras, ao idoso lhe resta, se não for estimulado o suficiente, olhar o passado com amargura, pois suas atividades atuais são limitadas e negadas. Se ao adolescente as negativas que lhe são feitas sobre sua atitude no mundo são temporárias (quando se tornarem adultos farão o que quiserem de suas vidas), ao idoso lhe é imposta a restrição permanente de liberdades que eles já exerceram muitas vezes em todas as ordens financeira, afetiva e física. O idoso já pode ter adorado cozinhar, dirigir, dançar, trabalhar, andar sozinho pela rua… hoje está exilado em casa, às vezes diante da TV, de álbuns de fotos, diante de memórias de perdas de familiares e amigos, perda de sua casa, das suas coisas e simplesmente diante da TV.
É preciso então ver que o idoso representa a oportunidade de reintegrar essas histórias familiares amontoadas pelos anos, pelas frustrações e pelas obrigações. Nessa fase é preciso olhar o idoso como alguém que tem muito a contar de si e do que passou, talvez escutar seus arrependimentos ou coisas a respeito das quais ele se orgulha. O idoso também se desenvolve, se for regado. Ao contar de si é possível acessar suas memórias mais caras e acessar ao mesmo tempo as memórias dos filhos, dos netos e trabalhar sentimentos de mágoas, desamparo que possam ter sido experimentados pela família.
Não escutar o idoso é perdermos nós mesmos nossa história. Se ela foi sofrida, ao não falar a respeito, podemos estar evitando entrar em contato com o sofrimento novamente. Se ela foi feliz e percebemos que a felicidade de outrora passou, podemos estar igualmente evitando lidar com a perda de segurança e apoio outrora ofertados por seus pais ou avós. Nos dois processos de defesa há perdas. Agir com impaciência e falta de empatia com os idosos pode ser o resultado da forma como vemos o processo de envelhecimento, da eminente perda do familiar e do medo de nossa própria velhice. Por isso aos familiares e cuidadores fazer terapia nesse momento é muito recomendável, pois seus processos narcísicos são revisitados e necessitam da fala para reajustar as demandas internas que precisam de ajuda profissional. Todos temos feridas da infância que podem envolver aqueles que cuidamos hoje. Nossos idosos podem ter sido pessoas difíceis que nos trouxeram sofrimento na vida, portanto lidar com eles hoje em uma posição de subjugo pode nos dar uma oportunidade inconsciente de vingança.
Assim, é preciso entender que a história passa, mas os sentimentos permanecem. Revisitar a história é olhar as coisas como foram e ver como elas podem melhorar hoje. Tendo isso em mente é sempre possível e positivo mudar.
Psicóloga Sandra Rodrigues



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