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A grande dúvida de como impor limites

  • Foto do escritor: Sandra Rodrigues
    Sandra Rodrigues
  • 1 de mar. de 2019
  • 4 min de leitura

Atualizado: 1 de ago. de 2022

1. RELAÇÃO MAMÃE BEBÊ/ MAMÃE CRIANÇA


Esta mãe está preocupada com um problema objetivo: o filho de cinco anos, sem transtornos psiquiátricos ou fisiológicos diagnosticados, não come bem, não come com garantia mínima nutricional e ela é a responsável por alimentá-lo. É uma mãe consciente dessa necessidade imensa da criança que é comer adequadamente e cujo narcisismo é atacado com essa questão, pois ela acaba por incorporar essa culpa de que se o filho não se alimenta a culpa pode ser dela. Quando falamos do bebê ou da criança falamos ainda da mãe e da atualização da sua própria experiência enquanto criança e da demanda de ser mãe.

Lembro aqui que há nessa dupla mãe/filho um resquício do vínculo inicial da amamentação: a criança de cinco anos só se alimenta bem quando a mãe interage com ela, quando participa e quando a estimula. Na saída da amamentação há um corte simbólico entre a mãe e a criança, disso todos nós sabemos, mas muitos ignoram que é algo a ser visto com bastante seriedade, pois algumas crianças desmamam rapidamente aceitando a alimentação sem maiores problemas, passando a pedir para comer sozinhas rapidamente, mas outras parecem precisar de um pouco mais de tempo nessa transição e parecem ainda necessitar da mãe mais ativamente até que de fato tudo se ajeite.

2. O QUE DE FATO O FILHO QUER, VER O DESENHO OU TER A MÃE JUNTO DELE NA HORA DE COMER, OU AMBOS?

O que quero destacar aqui é: será que o que a criança queria não era menos o desenho e mais a presença da mamãe na hora da alimentação, junto com ela? Ou às vezes ele pode encarar que a mãe ver o desenho com ele é uma forma dela participar de uma brincadeira com ele enquanto come? Às vezes ignoramos que para uma criança a presença da mãe pode ser muito mais necessária afetivamente do que o desenho, então, onde estaria a barganha aqui, se é que há em algum lugar? A criança não sabe formular seus desejos então cabe aqui a consideração de que se essa criança come de tudo quando a mãe está junto interagindo com ele numa situação em que lhe é prazerosa, mesmo que venha com o que eu melhor chamaria de “argumentação” a respeito do desenho, não entendo que haja problema, desde que isso não se torne a única maneira de alimentar a criança a longo prazo, e sim como uma estratégia temporária.

A mãe de um bebê pequeno ouve seu choro e infere que o bebê esteja com fome, dando um sentido para esse choro, interpretando-o como fome e retornando para o bebê com o alimento. Essa criança em questão já se comunica, mas só quer comer alimentos escolhidos por ela. Há aqui uma tentativa de emancipação da criança dessa função da alimentação, mas também uma demanda que deve ser interpretada e conduzida pela mãe da seguinte forma: - “Você tem fome, vou te levar o seu alimento, mas não será apenas o que você acha que deve comer. A mamãe é quem sabe o que é bom para você”. Com ou sem desenho essa enunciação precisa ser feita pela mãe.

E se a criança só quer comer um determinado alimento, o que já sabe que será negado, do que falamos? De muita coisa, inclusive de uma provocação à integridade narcísica da mãe, que pode se questionar sobre sua competência como cuidadora, passar a dedicar mais tempo e bajulações para ele na hora de comer, além de um aspecto mais comportamental que é a mãe acabar cedendo e reforçando no filho o hábito de só comer o que quer. Cabe aqui que a mamãe reveja sua própria questão com a alimentação: ela se excede, tenta superalimentar o filho, oferece pouco, aceita as recusas dele, faz o que o filho quer e depois se sente culpada? Por isso o assunto é amplo e complicado. Além disso escute seu filho, pergunte porque ele não gosta de determinado alimento e tente fazer alguma alteração na forma de fazer o alimento. Se a criança se queixa de estar salgado diminua o sal.

3. O QUE PODE SER FEITO PARA AJUDAR

Primeiro se a mãe refletir a respeito do tema alimentação, das suas próprias questões com o tema comida e achar que deve procurar ajuda psicológica sem dúvida estará ajudando a si e a seu filho. Essa dica é para todas as mães e cuidadoras de crianças que estão lendo esse tema, não um conselho específico para a mãe em questão.

•O assunto comida deve ser abordado com essa criança através da brincadeira e não somente na hora de comer: Isso pode ser feito através de livrinhos sobre o assunto, atividades didáticas com explicações sobre os alimentos em que sejam realçados os sabores, as cores, o prato saudável colorido, etc.

•A mãe precisa assim “banhar” a criança com esses significados da alimentação, sem que esteja imprimindo um excesso. Ela precisa ajudar a criança a direcionar o desejo alimentar de forma equilibrada explicando que as pessoas precisam comer coisas variadas para ter energia para brincar, para não ficar doentes, que as frutas são ótimas para a saúde, etc.

•A mãe pode pedir que o filho a ajude a cozinhar alguma coisa, desde que não o exponha a riscos: Pode pedir que ele ponha o ovinho naquela panela com água para cozinhar, que ele lhe traga ingredientes, que elogie sua atuação e elogie para outras pessoas quando ele comer bem.

•Sobre a opinião de terceiros: É saudável se questionar sobre algo que estamos fazendo, mas a professora tem uma função cuja área de atuação não envolve a alimentação infantil que deve ficar a cargo do nutricionista, pediatra, psicólogo e da mãe ou cuidadora da criança. Assim, a opinião dela não deve ser tomada como um veredito neste assunto sendo apenas o direito de opinião que todos temos.

Essas dicas podem ajudar a compreender esse processo de alimentação e o aspecto de troca afetiva que ele envolve, mas o assunto é muito complexo e digno de muitos outros momentos de reflexão.

Sandra Rodrigues ​Psicóloga e Psicanalista CRP 06113012

 
 
 

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