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SOBRE QUEM SOU EU

Aquele havia sido um sonho realmente terrível. Ele recebera em seu smartphone uma mensagem dizendo que ele deveria ir sozinho para um jantar com uma pessoa desconhecida e que só poderia sair quando conhecesse melhor o convidado. Ele simplesmente acatou a ordem. Vestiu a camisa que todos diziam ser a sua melhor pedida, a calça que o deixava vistoso, os sapatos bem limpos. O perfume que lhe deram na festa de aniversário era de fato tudo que lhe faltava! O cabelo foi penteado escrupulosamente: dividido, empurrado para trás. Seu convidado apareceu cinza, sem olhos visíveis, sem ouvidos, sem boca. Era um cimento com forma humana. Era algo asqueroso olhando melhor! Ele pediu o frango com molho de sempre, mas estava desconfortável com aquela companhia que nada via, nada falava, nada comia. Estou desagrandando? Pensou.


Checou os emails, viu a rede social. Esse truque/mania sempre dava certo para evitar contato social afinal! Mesmo com os mais próximos! Deve ser triste nao saber nada de nada de si, pensou. Pediu a sobremesa de sempre, e o cinza nada de vida. Conferiu suas mensagens no Whatsapp enquanto olhava de canto de olho buscando qualquer mudança. O cinza ali continuou impassível. Agora não faltava mais nada no ritual do jantar.

Quem sou eu? crises existenciais, terapia, depressão, ansiedade
Logo terapia, psicóloga, depressão, ansiedade.

Tomara o licor já buscando o que fazer no desconforto. Queria ir embora. Diante daquele tedioso silêncio ele olhou profundamente pra dentro daquela massa cinza que ao não lhe dizer nada passou a fazer aparecer pensamentos angustiantes. O frango nao caíra bem, deveria ter pedido o peixe novo do menu. A roupa estava apertando a barriga. Não estava vendo que ridiculo estava aquele botão desabotoando na sua barriga quando ele pendia o corpo? Será que seu cabelo estava de fato arrumado? Notariam a tintura recém colocada tirando os primeiros fios brancos? Se me julgarem velho por isso? Seu estômago ferveu. Sentiu raiva dos anos que passaram, do corpo que emagreceu errado, das entradas evidentes. Seu filho não o respeitava, afinal! Não queria ficar com ele no seu dia. A ex o manipula, pensou! Buscou se arrumar. A massa inerte continuava quieta e os pensamentos mais estranhos e contraditórios foram aparecendo. "- Tirem essa figura de gente daqui, gritou ao garçom, que nao o acudiu". Jogou-se desesperadamente em cima da massa inerte. Buscava agora desesperadamente dar-lhe feição qualquer.

 

A massa engolia qualquer tentativa e se alisava a cada momento. Fez-lhe lembrar da mãe e como ele tentava interpretar lhe em vão os seus sentimentos no meio daquelas feições rígidas. A raiva se descontrolou. Aquele cinza não tinha direito de o descontrolar. Bateu-lhe com força e já não se preocupou mais com quem estava por perto. Percebeu no entanto que ficava assim a cada momento mais dolorido a cada investida. Os socos que dera no inerte lhe doíam demais agora.

 

Ele se recolheu no canto da mesa impotente enquanto o outro ali triunfava sereno. Examinou seus machucados e teve certeza de que era ridiculo. Sua aparência imaculada agora estava em total desarranjo e o pior ele não ligou para isso. Olhava o cinza e agora serenou. O cabelo despenteado caiu no seu rosto e ele manteve assim. Gostou de ver os fios brancos entre os olhos. Olhou-se na bandeja na mesa e viu uma pessoa bem diferente do que ele achava que era. Aceitou as rugas, os dentes menos brancos, gostou de se ver mais relaxado, as feições amoleciam e se desmanchavam em cara de gente de verdade. Ao reparar de volta ao convidado percebeu que ele havia ido embora do mesmo jeito que chegou. De repente.   

Psicanalista Sandra Rodrigues

Key words: Terapia, depressão, ansiedade, estresse, medo, psicólogo.

Contato Psicólogo, terapia, depressão, ansiedade

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