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A Família do Eu só

Ela agarrava a família. Com unhas e dentes ela controlava tudo: que filmes assistir, o que comer, que horas acordar, dormir, o que vestir, como falar... Ela controlava o ambiente de trabalho, seus colegas sempre sabiam que ela controlaria o que precisava ser feito, o que era sempre esquecido, o que todos deixavam para fazer depois. Ela sabia que aquele dia muitas pessoas esqueceriam de fazer coisas importantes, então ela não só faria suas coisas importantes como teria certeza que os outros fariam as suas. Era mãe dentro e fora da casa, das boas. Mas quando precisava correr tanto, todos os dias estava acima do peso, sempre vermelha e esbaforida, sempre como a primeira roupa que achava para usar pois tinha pressa, sempre com o corte de cabelo menos custoso e trabalhoso. Sempre esquecia de por batom.

Sempre colocava o tenis que estava na porta, pois não teria tempo a perder buscando o par de sapato melhor. Sempre comia o pedaço de pão correndo, pois não dava tempo de almoçar direito. Mas a família... ah era exemplar. Todos faziam o que ela definia e do jeito que ela definia. Sem ela nada funcionaria, certo? Ela não gostava de ter que pensar em tudo, mas ela conseguia pensar em tudo e os outros não. 

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Porque ela se esforçava constantemente para deixar tudo como deveria ser ela não fazia o que deveria fazer. Seu discurso impecável, mas a sua excução falha. Os filhos não respeitavam tanto, o marido calava. E porque ele calava ele se mostrava infantil. E porque infantil ela não mais o desejava e porque não mais o desejava seu excesso de peso era providencial: mantinha as coisas em ordem, o casamento se materia assim, ela esquecida do que era desejar, do que era ser desejada, ele calado, pois não havia mais o que falar. Duraria para sempre.

Ah mas a familia era exemplar. As fotos nas redes sociais mostravam, quem iria duvidar? As fotos dos eventos familiares, dias dos pais, mães, dias de festa escolares. Essa família é inquebrável diziam. Até que todo o controle falhou. A filha teve ataque de ansiedade na escola. Não pôde fazer a prova. Se angustiava tanto, não sabia o motivo, que se cortou escondido. A partir daí adoeceu de pele. Manchas inexplicáveis diziam os médicos. Passou a tomar remédio controlado, mas não controlava. O marido calava mais. não havia mais o que dizer, nem como dizer o que deveria ser dito. Esquecia de lembrar do remédio da filha, esquecia de fazer seus deveres de pai, esquecia os deveres de marido, como ela poderia aceitar?  - O problema só poderia ser ele! disse ela, com toda certeza. Ele tem que mudar. Tentou de tudo. Ele não mudou. O marido nada dizia, só calava. 

O casamento acabou no dia que ele falou. Ela tentou que tentou que ele calasse e ele não calou. A familia perfeita separou, filhos e mágoa eterna com ela, culpa do fim do mundo com ele. Pensava na sua perfeita família e resssentia o fim do que ela conhecia bem e a iminência do desconhecido. A filha não melhorou mesmo com o pai se esforçando nas visitas e na atenção. A mãe pensou e agora qual o problema? Trocou remédio, criticou o atraso do pai no dia que foi pegar na escola, cobrava a filha de inúmeras formas, até que caiu de cama sem nada mais saber. Entendeu que ela era o problema dela. Agora faltava achar para si a solução.

 

Psicanalista Sandra Rodrigues 

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